
Plínio Marcos continua feroz. Seus personagens exalam fogo das ventas e dos corpos e isto os constituem em personagens de uma história a que podemos chamar de Brasis.
O Poeta da Marginália nunca fez concessões a ninguém. Nunca puxou o saco dos poderosos, nem iludiu o público que via suas peças. Ao contrário, foi voraz até a raiz. No santo insight das obras como Querô, uma Reportagem Maldita, onde um garoto, um pivete, mata e é morto, ele conseguiu um realismo de forte conotação expressionista, até.
Plínio era um artista de respostas paradoxais dentro da vida veloz e inumana dos subúrbios, ou mesmo das grandes cidades desumanas, nesta vida que escolheu, ao lado daqueles que ele quis retratar e que assim escolheu e acolheu. Mesmo exasperado produziu para que a sociedade visse nas classes baixas a relação íntima do poder do mais forte contra os mais fracos.
O poder, na mitopoética pliniana, corrompe, e longe das esferas oficiais, é povoado por aqueles que o detém: cafetões, policiais corruptos, presidiários, donos de bordéis. Ao mesmo tempo declara suas vítimas, os consumidos pela sociedade: as prostitutas e os marginalizados, os artistas, os loucos.
Ele, Plínio, nunca teve uma intenção de saudar o Poder. Poder fede, é fedido. Fedido, fedido, fedido. Como ele explicita na peça Navalha na Carne, na qual a prostituta exasperada repete a sua ladainha à exaustão, por mais um dia de vilipendios.
Este Poder opressor se acha encravado no dedo do pé de um Brasil adormecido e adocicado. Um Brasil de passados gloriosos, enquanto seu presente é a violência que manda. No poder trágico que ilumina quando queremos explicar a cor de nossas entranhas, de nossa sociedade verdadeira. Plínio é um Nelson Rodrigues às avessas, louco por uma escapada na periferia para contar o fim trágico daqueles que vemos assassinados no jornal da noite. Um artista que remete à precisão escatológica e que nos faz digerir bílis em vez de mel.
Um gênio do teatro da real crueza. Das coisas altas e baixas que vira e meche se escondem do leitor médio, das classes A e B. Da vida que é abandono e solidão na espera de que algo pior pode vir.
Como no poema de Drummond nos perguntamos, ao avistar o universo ricamente dos Dois Perdidos Numa Noite Suja e seus becos sem saídas: “ E agora, José?/ José, para onde?...”
Texto: Nestor Lampros

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